A tranquilidade no portão da casa denuncia algo estranho.
O olhar triste do morador da residencia anuncia que algo está faltando, mas o entregador da conta de água não consegue no primeiro momento detectar do que se trata. Apenas entrega com um rápido e automático "bomdiasenhor", a conta do consumo mensal.
Gira sobre os calcanhares e se prepara para sair, quando súbitamente lhe ocorre o motivo do silêncio...
- Senhor, cadê aquele cachorrão preto? - indaga esticando o pescoço para ver sobre os ombros do morador - Ele está preso?
Nesse momento as ocorrências dos últimos dias assumem as memórias do morador. Seu olhar triste se aprofunda e uma lágrima furtiva lhe escapa...
A imagem de outrora onde o animal desfilava um corpo atlético e forte esbanjando saúde correndo por todo o quintal, era apenas uma lembrança.
Seu latido forte e grave, alertava a todos que ali vivia um cão feliz e vigilante... Seu rugido fazia tremer os destemidos... Afugentava os valentes e fazia desviar o pensamento do infeliz que ousasse aproximar-se furtivamente da residência...
Uma fortaleza ambulante!
Respeitava os donos da casa com uma subserviência fantástica... Dizem os entendidos que o cão é uma animal que tem personalidade, e que isso é próprio de cada exemplar... Pois aquele cão possuia uma personalidade admirável. Conduta irrepreensível...
Um gigante com alma de criança...
Além de um guarda respeitável, um dócil protetor e amado amigo...
Mas um dia, ele foi diagnosticado com câncer na mandíbula...
Uma verdadeira bomba explodiu no coração de seu dono... Nada era possível ser feito... A não ser cerca-lo de mais carinho ainda e compreensão.
Chegou o temido estágio da doença onde o pobre animal não tinha forças sequer para levantar-se... Suas pernas fraquejavam e mal o sustentavam em pé... Partia o coração ver aquele lindo cão, mal se sustentando sobre as pernas, caindo sem forças sobre as patas fracas...
Ele bem que tentava, coitadinho, mas não conseguia permanecer de pé... Queria receber seu dono no portão como sempre o fizera, mas o máximo que conseguia era se arrastar alguns passos... Tentava, mas não havia mais forças para saltar...
Com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais doloroso ver seu pequeno gigante definhando com a maldita doença, emagrecendo cadavéricamente... Mal levantava a cabeça e seu olhar triste como que pedindo socorro ficava cada vez mais profundo com a velocidade surpreendente da aproximação da morte...
Já em estado avançado de debilidade, com muito empenho teimava em levantar a cabeça para receber seu dono, mesmo quando suas forças não lhe permitiam sequer latir...
Não havia mais como sustentar sua vida... Em questão de poucos dias, o sofrimento atingiu patamares surpreendentes e já não era mais suportável...
Com uma grande dose de relutância em seu coração, o seu dono chamou a médica veterinária para o sacrifício final.
Foram necessárias algumas doses letais a mais do que o comumente utilizado e apesar de levemente anestesiado, o valente animal suportou o procedimento sem emitir um gemido sequer...
Com a cabeça apoiada sobre os braços de seu amigo, despediu-se com um longo e tranquilo suspiro...
Saudades,
meu valente Iron...
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